A CIDADE MENTAL, A CIDADE REAL E A

GEOGRAFIA FANTÁSTICA DE ITALO CALVINO

 

Adriana Iozzi - UNESP/ FUNDUNESP

 

 

A literatura parece ser vista por Italo Calvino como uma espécie de espaço problemático, por meio do qual se pode procurar, segundo regras recorrentes que lhe declaram o caráter de jogo e desafio, saídas ou possibilidades de transformação da escrita literária em exploração de “territórios”. O interesse de Calvino pela ciência e pelo jogo combinatório assinalam um trabalho rigoroso em busca da formulação das relações combinatórias entre funções culturais e categorias do pensamento. Os estudos sobre a utopia urbana de Charles Fourier[1] e, posteriormente, a publicação do livro Le città invisibili (1972), são resultantes desta procura de soluções por parte do escritor e representam uma síntese teórica e narrativa sobre o problema do espaço urbano e a sua relação com o homem.

Em Le città invisibili, Calvino procura oferecer uma imagem literária, exaustivamente apontada por ele no ensaio “Cibernetica e fantasmi”, do conceito de memória que vai se difundindo no mundo da tecnologia avançada, ou seja, a memória como repertório potencial, que toma como modelo a memória das calculadoras, da informática. As cidades descritas pelo personagem Marco Polo em Le città invisibili são variantes combinatórias de uma paisagem urbana, inseridas na moldura do diálogo entre o viajante veneziano e Kublai Khan. As descrições das cidades são elaboradas dentro de uma estrutura matemática bem precisa, cuja simetria lembra, entre outras coisas, um esquema métrico, em particular o esquema da sextilha[2]. As cidades de cada rubrica são numeradas de 1 a 5, dispostas em 9 seções, em uma ordem constante que pode ser comparada a um entrelaçamento de rimas.

Ainda que tomando como modelo alguns aspectos temáticos e estilísticos de Il milione (1298) de Marco Polo, Le città invisibili apresenta-se muito distante do original, uma vez que o núcleo gerador de sua narrativa são os diálogos, repletos de reflexões, que emolduram as descrições das cidades, ao contrário de Il milione, cujo ponto central são as próprias descrições das cidades e dos hábitos de seus moradores.

O livro de Calvino é uma obra de rara perfeição estilística, construída na forma de dezoito diálogos entre Marco Polo e Kublai Khan, imperador dos tártaros. A ele o jovem veneziano dirige no decorrer dos vários encontros que acontecem nos jardins suspensos do reino, à hora do crepúsculo, os relatórios das missões feitas nas cidades do vasto império em decadência. Intercaladas entre os diálogos dos dois existem as cinqüenta e cinco cidades, reflexos de uma realidade distorcida, da imaginação ou da lembrança, que Marco Polo descreve a Kublai Khan. Cidades visitadas e exploradas nos seus cantos mais secretos (as cidades e a memória, as cidades e o desejo, as cidades e os símbolos, as cidades delgadas, as cidades e as trocas, as cidades e os olhos, as cidades e o nome, as cidades contínuas e as cidades ocultas) e descritas de forma a mesclar o real e o ilusório, o fantástico e o alegórico, a reflexão filosófica e a crítica literária. O “cenário” é o da fábula oriental, com desertos, caravanas, pastores, especiarias, mulheres nas fontes.

Há, contudo, um aspecto que merece particular atenção pois nos parece de suma importância para o entendimento do livro. Trata-se do fato de o Marco Polo de Calvino coincidir perfeitamente com o personagem histórico em pelo menos um traço psicológico, o de viajar pelas cidades da Ásia carregando consigo a imagem e a saudade de Veneza, sua cidade natal.

A viagem, nessa narrativa, apresenta-se como uma metáfora da memória, representando aquilo que existe de arcaico e genealógico na literatura, ou seja, a reconstrução, por meio da memória, de uma topologia ideal, produto de uma idealização. Veneza torna-se uma categoria ideal, o modelo de cidade formada pelo desejo, pela saudade da infância perdida, com o qual se confrontam as cidades visitadas pelo mercador viajante. Por isso todas as cidades descritas por Marco Polo têm algo de Veneza.

A viagem ligada à memória é um tema recorrente da literatura universal de todos os tempos. Seguindo modelos clássicos como Dante ou Virgílio, entre outros, também o livro de Calvino possui a estrutura de uma viagem através do tempo. Essa parece ser a concepção de viagem apresentada pelo personagem Marco Polo de Le città invisibili. Cidades talvez invisíveis porque vistas pelos olhos do presente, talvez idealizadas porque reconstruídas por meio do passado, da memória, fixada sempre num ponto de partida:

 

Ao chegar a uma nova cidade, o viajante reencontra um passado que não lembrava existir: a surpresa daquilo que você deixou de possuir revela-se nos lugares estranhos, não nos conhecidos...

Agora, desse passado real ou hipotético, ele está excluído; não pode parar; deve prosseguir até uma outra cidade em que outro passado aguarda por ele, ou algo que talvez fosse um possível futuro e que agora é o presente de outra pessoa. Os futuros não realizados são apenas ramos do passado: ramos secos.

- Você viaja para reviver o seu passado? - era, a esta altura, a pergunta do Khan, que também podia ser formulada da seguinte maneira: - Você viaja para reencontrar o seu futuro?

E a resposta de Marco Polo:

- Os outros lugares são espelhos em negativo. O viajante reconhece o pouco que é seu descobrindo o muito que não teve e que não terá. (Calvino, 1990, p.29)

 

O passado está irremediavelmente perdido, a viagem ao longe é uma viagem para dentro de si. Como em La recherche du temps perdu, de Proust, o tema da viagem ligada à memória, à recordação, atravessa todo o livro Le città invisibili.

O tema da viagem e a estratégia do distanciamento presentes neste livro nos remetem ao pathos della distanza, já apontado na obra de Calvino por vários críticos[3] como sendo uma constante do seu estilo. Para não se sentir intimamente envolvido com o presente, ou o real, o escritor procura distanciar-se de seus personagens ou de determinadas situações para melhor observá-los. O distanciamento é desejado e vivido e o ato de olhar à distância não é somente tranqüilizante mas teoricamente necessário, pois somente desta forma não se corre o risco de ficar totalmente envolvido com a infinita e fragmentária variedade do real:

 

Diante da brisa que dispersava a fumaça, Marco pensava nos vapores que enevoavam a amplidão do mar e as cadeias das montanhas, e que, ao rarearem, tornam o ar seco e diáfano revelando cidades longínquas. O seu olhar queria alcançar o lado de lá daquela tela de humores voláteis: a forma das coisas se distingue melhor à distância. (Calvino, 1990, p.93)

 

A impossibilidade de narrar em primeira pessoa, declarada por Calvino no prefácio à segunda edição de Il sentiero dei nidi di ragno (1964), já revelava a necessidade do escritor de distanciar-se do fato narrado para poder suavizar a existência e reduzir os acontecimentos a uma ordem preestabelecida, geométrica.

Em Le città invisibili Calvino “finge” distanciar-se narrando a partir de um passado remoto. O livro é ambientado nos tempos medievais de Marco Polo, mas fala do presente, da busca de uma cidade ideal para o presente. E não somente este tema principal de Le città invisibili é extremamente atual, mas também a linguagem com a qual é escrito o “romance” desenvolve-se a partir de idéias difundidas pela semiologia e pelo estruturalismo, que fascinaram Calvino na época em que ele se encontrava em Paris. Também as idéias veiculadas pelo grupo OULIPO[4] e especialmente o contato com Queneau, que sustentava que a “nova retórica” deveria refletir nos seus procedimentos criativos a lógica matemática das calculadoras eletrônicas, criadas a partir de um sistema binário, aparecem no livro de Calvino reelaboradas de forma exemplar.

Embora apresente um texto aparentemente fechado na sua perfeição estrutural, coerente com a concepção da literatura como processo combinatório, Le città invisibili vai em direção a uma lógica propositadamente abstrata, isto é, na direção das irredutíveis necessidades humanas, da geometria dos sentimentos que desenha os perfis das cidades habitadas pelos homens. Calvino mostra a cidade como labirinto do inconsciente individual e coletivo, contraposto ao espaço real das cidades contemporâneas.

Le città invisibili,além de inserir-se de forma brilhante no âmbito dos livros que abordam a temática da viagem, tão recorrente na literatura, coloca-se no campo da pesquisa sobre a cidade, encarada como símbolo e como lugar mental. Quando lemos os fragmentos do romance, não como uma seqüência mas como um texto único, ocorre uma superposição quase surrealista das cidades, o que resulta numa nova realidade, a da metrópole contemporânea como imagem mental. O livro, no fundo, indaga a respeito dos aspectos que agem no imaginário coletivo, ou individual, a ponto de transformar o espaço real de uma cidade em um lugar da mente. Esta chave de leitura do livro é sugerida pelo próprio escritor:

 

Aquilo que está no coração do meu Marco Polo é descobrir as razões secretas que levaram os homens a viver nas cidades, razões que estariam além de todas as crises. As cidades são um conjunto de tantas coisas: de memória, de desejos, de signos de linguagem; as cidades são lugares de troca, como explicam todos os livros de história da economia, mas estas trocas não são somente trocas de mercadorias, são trocas de palavras, de desejos, de recordações. O meu livro se abre e se fecha sobre imagens de cidades felizes que, continuamente, tomam forma e dissipam-se, escondidas nas cidades infelizes. (Calvino, 1995, p.10)

 

Maria Corti, num artigo intitulado “La città come luogo mentale”, afirma que a principal função que o símbolo da cidade possui na época moderna é o seu poder de produzir uma orientação dos códigos culturais em direção ao futuro, a algo que não existe, mas que pode vir a existir (Corti, 1993, p.10).É o caso da cidade como lugar mental utópico, voltada exclusivamente para o futuro. Livre de história, a imagem da cidade utópica visa programar algo que pareça artificial, situado num lugar novo, construído com regras novas.

O método empregado por Calvino em Le città invisibili toma o caminho do pensamento utópico. É ao lado da própria idéia de destruição da cidade que se delineia a hipótese de uma nova possível utopia[5]. A frase final do livro[6], sobre a qual muitos críticos se ativeram em inúmeras análises possui, segundo o próprio Calvino, uma dupla conclusão: uma sobre a cidade da utopia, aquela idealizada e desejada, e outra sobre a cidade infernal, aquela na qual vivemos.

Calvino mostra-se consciente de que a cidade ocupa um lugar importante no sistema de símbolos elaborados pela história da cultura. O tema da cidade dotada de vida própria reevoca o tema clássico da cidade-utopia, condensação geográfica e arquitetônica ideal, projeto sociológico e político reproposto ciclicamente pelo imaginário coletivo e repensado, constantemente, como meta de perfeição e receptáculo de sonhos. O livro Le città invisibili, no entanto, não evoca somente uma idéia atemporal de cidade, mas desenvolve, ora implícita, ora explicitamente, uma discussão sobre a cidade contemporânea. Isso é percebido não somente por meio das referências às metrópoles conhecidas mas também porque as evocações de cidades que parecem arcaicas possuem sentido se analisadas sob a ótica da cidade atual.

Uma exata consideração do tema da cidade em Le città invisibili deve partir do exame do nível discursivo deste texto, isto é, do plano seqüencial de narrativas nas quais estão presentes as várias cidades “invisíveis”. A sua principal característica seria apresentar as cidades imaginárias e dispô-las, depois, segundo um percurso, um itinerário de viagem. Ao longo deste itinerário, o discurso segue uma mutação temática ou uma mutação referencial, que desloca gradualmente as coordenadas espaço-temporais de um nível ideal para um nível virtual, contíguo à cidade real, à atual metrópole (Balice, 1986, p.81). Tal deslocamento se traduz numa lenta passagem de um nível utópico positivo para um nível utópico negativo. De uma dimensão originária, constituída por cidades e situações extraordinárias, impossíveis e excepcionais mas perfeitamente estruturadas e isentas de qualquer contradição, passa-se gradualmente a uma dimensão inautêntica, artificial, desarticulada, constituída por cidades igualmente extraordinárias mas repletas de contradições, de problemas ambientais, de angústias existenciais, que caracterizam a fase de decadência das cidades, transformadas em metrópoles. A série de cidades delgadas, do livro Le città invisibili, apresenta cidades cujas formas e relações com seus habitantes seguem uma harmônica consonância entre o mundo natural, o mundo urbano e aquele humano e sobrenatural. Isaura, por exemplo, cidade dos mil poços, situa-se presumivelmente sobre um profundo lago subterrâneo. O perímetro verdejante da cidadereproduz aquele das margens escuras do lago submerso, uma paisagem invisível condiciona a paisagem visível, tudo o que se move à luz do sol é impelido pelas ondas enclausuradas que quebram sob o céu calcário das rochas (Calvino, 1990, p.24). Isaura, em conseqüência disso, possui duas religiões diferentes, pois alguns de seus habitantes acreditam que os deuses da cidade vivem nas profundidades do lago subterrâneo; outros, porém, crêem que os deuses vivam nos baldes.

Zenóbia, outra cidade deste grupo, embora situada em terreno seco, ergue-se sobre altíssimas palafitas:

 

Não se sabe qual necessidade ou mandamento, ou desejo induziu os fundadores de Zenóbia a dar essa forma à cidade ... Mas o que se sabe com certeza é que, quando se pede a um habitante de Zenóbia que descreva uma vida feliz, ele sempre imagina uma cidade como Zenóbia, com suas palafitas e escadas suspensas, talvez uma Zenóbia totalmente diferente, desfraldando estandartes e nastros, mas sempre construída a partir de uma combinação de elementos do modelo inicial. (Calvino, 1990, p.36)

 

Em Armila não há paredes, nem telhados, nem pavimentos. Não há nada que lembre uma cidade, exceto os encanamentos de água que surgem verticalmente onde deveriam existir as casas. Esta cidade, abandonada antes ou depois de ser habitada, não é uma cidade deserta, pois a qualquer hora do dia, olhando através dos encanamentos, podem-se ver jovens mulheres tomando banho. A conclusão a que chega o narrador é que os cursos de água canalizados nos encanamentos de Armila ainda permanecem sob o domínio de ninfas e náiades. Como nas outras cidades citadas, há duas hipóteses para explicar este fato: pode ser que a invasão das ninfas tenha afastado os homens, ou pode ser que Armila tenha sido construída pelos homens como oferta para cativar a benevolência delas, ofendidas pela violação das águas (Calvino, 1990, p.49).

Diferentemente das cidades delgadas, as cidades contínuas são marcadamente contraditórias, os lugares ali se misturam, se confundem e as situações descritas nestas assinalam a falta de uma definição do espaço urbano ou natural. Nelas, muitas vezes, verifica-se a impossibilidade de o homem desenvolver uma experiência regular no seu ambiente, tal como ocorre no conhecido e real mundo das metrópoles. Leônia, por exemplo, é uma cidade cujos habitantes amam coisas novas e diferentes e sua opulência é medida pelas coisas que todos os dias são jogadas fora para dar lugar às novas. Em decorrência disso o lixo, que se acumula nas calçadas e é posteriormente levado aos depósitos longe dos olhos da população, é cada dia mais volumoso. Uma visão utópica completamente negativa depreende-se da leitura da descrição desta cidade, como se fosse um presságio do narrador, que parece observar de longe as inúmeras montanhas de lixo da cidade:

 

A imundície de Leônia pouco a pouco invadiria o mundo se o imenso depósito de lixo não fosse comprimido, do lado de cá de sua cumeeira, por depósitos de lixo de outras cidades que também repelem para longe montanhas de detritos. Talvez o mundo inteiro, além dos confins de Leônia, seja recoberto por crateras de imundície, cada uma com uma metrópole no centro em ininterrupta erupção. (Calvino, 1990, p.106)

 

Na cidade de Pentasiléia o viajante avança por horas e não sabe se está no centro da cidade ou se continua do lado de fora dela. Os que por ali circulam não sabem indicar onde fica a cidade; alguns vão para lá somente para trabalhar, outros voltam só para dormir. Pentasiléia se alarga por milhas de distância ao seu redor numa sopa de cidade diluída no planalto:

 

...edifícios pálidos que dão as costas para prados insípidos, entre paliçadas de varas e telhados de zinco. De vez em quando, às margens da estrada, uma concentração de construções de fachadas áridas, altas altas ou baixas baixas como um pente desdentado, parece indicar que a partir dali as malhas da cidade se restringem. Em vez disso, prosseguindo você encontra outros terrenos baldios, depois um subúrbio com oficinas e depósitos enferrujados, um cemitério, uma feira com parque de diversões, um matadouro; você se afasta de uma rua de lojas macilentas que se perde em manchas de campo pelado...

Se escondida em algum bolso ou ruga dessa circunscrição transbordante existe uma Pentasiléia reconhecível ou recordável por quem ali esteve, ou então se Pentasiléia é apenas uma periferia de si mesma e o seu centro está em todos os lugares, você já desistiu de saber. A pergunta que agora começa a corroer a sua cabeça é mais angustiante: fora de Pentasiléia existe um lado de fora? Ou, por mais que você se afaste da cidade, nada faz além de passar de um limbo para o outro sem conseguir sair dali? (Calvino, 1990, p.142-3)

 

O livro de Calvino mostra como vivemos hoje, nos grandes aglomerados urbanos, assombrados por uma idéia de cidade que não encontra mais possibilidade de concretização material. Como afirma Habermas, a respeito das metrópoles contemporâneas, a cidade tornou-se o ponto de interseção de relações funcionais de outra espécie (Habermas apud Coelho, s.d., p.74). Uma espécie que se traduz em sistemas abstratos impossíveis de serem representados de forma concreta. Os edifícios não possuem mais uma aparência definida ou “visível”; os prédios comerciais, que dominam os centros de algumas cidades, são neutros como os grandes edifícios burocráticos. Na metrópole contemporânea, por exemplo, as distinções das funções de determinados edifícios têm de ser feitas, ao contrário do que ocorria antigamente, por um outro veículo que não a arquitetura. Atualmente uma igreja pode parecer-se com um ginásio esportivo ou com um cinema e é necessário recorrer a outros media (o luminoso em neon ou uma placa) para diferenciar e assinalar a função de uma construção.

A cidade invisível de Zoé representa exemplarmente esta característica da arquitetura das grandes cidades contemporâneas:

 

Em cada cidade do império, os edifícios são diferentes e dispostos de maneiras diversas: mas assim que o estrangeiro chega à cidade desconhecida e lança o olhar em meio às cúpulas de pagode e clarabóias e celeiros ... logo distingue quais são os palácios dos príncipes, quais são os templos dos grandes sacerdotes, a taberna, a prisão, a zona...

Não é o que acontece em Zoé. Em todos os pontos da cidade, alternadamente, pode-se dormir, fabricar ferramentas, cozinhar, acumular moedas de ouro, despir-se, reinar, vender, consultar oráculos. Qualquer teto em forma de pirâmide pode abrigar tanto o lazareto dos leprosos quanto as termas das odaliscas. O viajante anda de um lado para o outro e enche-se de dúvidas: incapaz de distinguir os pontos da cidade, os pontos que ele conserva distintos na mente se confundem. (Calvino, 1990, p.34)

 

Hoje o significado da cidade já não é mais evidente, nem claro é o significado daquilo que nela acontece. No passado a ferrovia chegava ao centro da cidade e era vista como parte desta enquanto sistema de vias de transporte. Na cidade atual o trem foi substituído pelo avião e os aeroportos situam-se fora dos limites urbanos. Teixeira Coelho, ao analisar a cidade pós-moderna sob o ponto de vista dos estudos de Habermas, afirma, a respeito desta nova característica da cidade:

O efeito metonímico foi perdido: prevalece o sentido metafórico, que não é imediatamente apreensível. ... Nada mais tem uma face definida ou sequer visível (Coelho, s.d., p.74)

 

Segundo o narrador de Le città invisibili, a cidade de Trude é igual a muitas outras cidades conhecidas tanto que se, ao chegar ao seu aeroporto, ele não tivesse lido o nome da cidade em um letreiro, pensaria estar na mesma cidade da qual partiu. Mesmo sem nunca ter ido à Trude, os subúrbios, as casas, as praças, as ruas do centro, as mercadorias vendidas nas lojas, o hotel, eram conhecidos porque idênticos a tantos outros vistos em diferentes cidades:

 

- Pode partir quando quiser - disseram-me -, mas você chegará a uma outra Trude, igual ponto por ponto; o mundo é recoberto por uma única Trude que não tem começo nem fim, só muda o nome no aeroporto. (Calvino, 1990, p.118)

 

A escolha de Il milione, visto como obra a ser revisitada e núcleo gerador do amor de Calvino em relação à cidade, parece ter ocorrido também devido à necessidade, sentida pelo autor, de redefinição de arquétipos narrativos (neste caso, o topos da viagem, ou melhor, da viagem de exploração), em função do horizonte contemporâneo. A diferença essencial entre a viagem do Marco Polo (histórico) e o Marco Polo de Calvino é a ausência de um itinerário preciso. A narrativa deste último salta da descrição de uma cidade para outra sem que haja nenhuma referência à ligação geográfica no percurso seguido pelo viajante. Tal omissão poderia ser justificada tanto pela imagem da cidade contínua, que se estende sem limites, como também pelo fato de o percurso de viagem seguido por Marco Polo em Le città invisibili estar relacionado à memória e ser regido, portanto, pela lógica do descontínuo, do discreto, expressa por Calvino no ensaio “Cibernetica e fantasmi”[7]. Essa lógica do descontínuo, que determina o itinerário de viagem de Marco Polo, caracteriza também as nossas viagens na atualidade, fato apontado por Calvino em Eremita a Parigi:

 

... tanto as viagens internacionais quanto os percursos urbanos não são mais explorações através de uma série de lugares diversos: são simplesmente deslocamentos de uma ponto a outro, entre os quais existe um intervalo vazio, uma descontinuidade, um parêntese sobre as nuvens para as viagens aéreas e um parêntese subterrâneo para os percursos na cidade. (Calvino, 1996, p.174)

 

A narrativa em Le città invisibili, gradativamente, vai delineando a idéia que o escritor tem da cidade. De maneira genérica, a forma urbana aparece no livro como forma homóloga à forma artística e tem como objetivo circunscrever opiniões que, em um certo clima intelectual, nascem da analogia estrutural entre a forma urbana e a forma literária.A literatura surge, neste caso, como uma espécie de testemunho sobre a cidade e a cidade como um referente na obra literária. A cidade seria, portanto, encarada como um símbolo a ser trabalhado poeticamente e Calvino tenta, a nosso ver, criar neste livro uma espécie de metaforização, dir-se-ia antropológica, do olhar do escritor sobre a cidade.

Paralelamente à discussão sobre a cidade, Le città invisibili propõe uma reflexão sobre o fazer literário uma vez que este livro se configura como uma metáfora complexa do ato de escrever, encarado como a tarefa de atribuir às palavras uma multiplicidade de significados de modo que, no final, o leitor possa encontrar no livro a história que lhe interessa: Eu falo, falo, mas quem me ouve retém somente as palavras que deseja... Quem comanda a narração não é a voz: é o ouvido, sentencia Marco Polo.

Como o Gran Khan que, frente aos objetos apresentados por Marco Polo deveria formar na sua mente uma determinada estória, consciente que os objetos assumiam significados diferentes de acordo com a ordem na qual vinham expostos, também o leitor possui a responsabilidade de extrair um sentido plausível, mas nunca categórico, do texto escrito por Calvino. Por isso o escritor não se refere essencialmente a uma realidade imediata mas, ao contrário, procura manter a perda do significado comum das palavras, tirando-lhes o privilégio único de ilustração do real.

A questão fundamental não é saber se Marco Polo realmente visitou as cidades por ele descritas, mas expor a idéia de que as cidades invisíveis existem em função da narração, em decorrência do projeto humano que as edifica. A sua realidade não provém da sua efetiva realização, mas do simples fato de pertencerem ao campo das possibilidades.

 

 

Referências Bibliográficas:

 

BALICE, M. Le città di Calvino. Paragone letteratura, 438, agosto, 1986, p.73-8.

CALVINO, I. Le città invisibili. Torino: Einaudi, 1972.

_____. Eremita a Parigi. Lugano: Pantarei, 1974 (publicado posteriormente com o título Eremita a Parigi: pagine autobiografiche. Milano: Mondadori, 1996 (Oscar Mondadori).

_____. Cibernetica e fantasmi. In: Una pietra sopra: discorsi di letteratura e società. Torino: Einaudi, 1980.

_____. As cidades invisíveis. Trad. D. Mainardi. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.

_____. Le città invisibili. 4. ed.Milano: Mondadori, 1995, (Oscar Mondadori).

COELHO, T. Moderno pós-moderno: modos e versões. 3. ed. São Paulo: Iluminuras, s.d.

CORTI, M. La città com luogo mentale. Strumenti critici, 71, gennaio, 1993, p.1-18.



[1] Em 1968, Calvino inicia um período de estudos sobre a obra e o pensamento de Charles Fourier, que culminará com a publicação do livro Teoria dei quattro movimenti: Il nuovo mondo amoroso. Trad. E. Bavesi. Torino: Einaudi, 1971, coletânea de textos de Charles Fourier selecionados por Calvino. No início da década de 70, Calvino publicaos ensaios La società amorosa (L’Espresso, 18 abr. 1971), L’ordinatore dei desideri (trata-se da introdução ao livro acima mencionado, de 1971) e L’utopia pulviscolare (Almanaco Bompiani 1974. Milano, 1973), todos publicados posteriormente em Una pietra sopra.

[2] A afinidade com a sextilha é apontada por P. V. Mengaldo. (L’arco e le pietre. In:___. La tradizione del novecento: da D’Annunzio a Montale. Milano: Feltrinelli, 1975, p.410)

[3] Esta expressão, empregada pela primeira vez pelo crítico italiano Cesare Cases para caracterizar o estilo de Calvino (Revista Città aperta, 7-8, 1958; agora incluído no volume Corti, M. e Segre, C. (Org.) I metodi attuali della critica in Italia. Torino: ERI, 1970), foi tomada, no entanto, do arsenal filosófico de F. Nietzsche.

 

[4] O OULIPO (Ouvroir de Littérature Potentielle), fundado em 1960 por François Le Lionnais, tinha como maiores representantes Raymond Queneau e Georges Perec, além de Calvino como sócio honorário. Tal grupo propunha a renovação dos procedimentos de composição literária por meio de jogos matemático-combinatórios. A respeito desse assunto, indicamos OULIPO: la letteratura potenziale. Bologna: CLUEB, 1986.

 

[5] Lembremos que no livro de Calvino existem cinqüenta e cinco cidades, da mesma forma que na república do livro de Thomas More.

[6]O inferno dos vivos não é algo que será; se existe, é aquele que já está aqui, o inferno no qual vivemos todos os dias, que formamos estando juntos. Existem duas maneiras de não sofrer. A primeira é fácil para a maioria das pessoas: aceitar o inferno e tornar-se parte deste até o ponto de deixar de percebê-lo. A segunda é arriscada e exigem atenção e aprendizagem contínuas: tentar saber reconhecer quem e o que, no meio do inferno, não é inferno, e preservá-lo, e abrir espaço. (Calvino, 1972, p.150)

 

[7] A aplicação da cibernética nos processos criativos de escritura de Le città invisibili mostra-se evidente, uma vez que o texto é modelado a partir de uma estrutura fixa que permite múltiplas possibilidades combinatórias. Neste livro, os cérebros eletrônicos, largamente apontados no referido ensaio, são, aproveitando uma explicação do próprio Calvino, um modelo teórico convincente para os processos mentais mais complexos da nossa memória, das nossas associações mentais, da nossa imaginação, da nossa consciência (Calvino, I. Cibernetica e fantasmi, 1980., p.167). As cidades de Le città invisibili, narradas a partir de uma memória de tipo eletrônico, são variantes combinatórias de uma única cidade, ou de um “modelo”de cidade.